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estórias soltas da montanha
sim, a montanha tem esse universal arrebatar, do seu tempo que não é dos nossos. território franco e generoso na magnificência da sua grandeza, na abundância de matéria dita inerte, na diversidade das suas vestes coloridas, nas arrojadas variações de escala, na quase infinita sucessão de planos, no aparato dos muitos acidentes, nas relações anormais entre as distâncias.
um desafio permanente. simples porque espontâneo. faz abrandar.
desenhar paisagens montanhosas é deixar livre o lápis seguir caminho, porque nunca deixarão de ser montanhas. são orgânicas: um intricado de linhas e volumes onde mais ou menos luz provoca luxuosos contrastes, onde a organização dos elementos varia sem fim e os contornos oscilam por decisão aleatória, como se do vento responsabilidade fosse. onde o erro pode naturalmente acontecer, admitido como referência, e continuar a viajar, por onde muito do que se questiona tem lugar fértil para sossegar...
dezembro 2013, Pascal Ferreira
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POR ORA...
Primeiro as pontes, depois as margens
Exercício epistolar sobre alguns trabalhos de Pascal Ferreira
Meu Caro,
que fortuna deve ser a de avistar uma ilha. Parece coisa de somenos, mas bastaria pensarmos no que nos conta o Poeta sobre os muitos trabalhos da Deusa, aqueles de que foi incumbida para que os lusos se pudessem cruzar com o seu destino, com a sua Ilha dos Amores, para que imediatamente sejamos tomados por uma estranha e humilde sensação de gratidão. Avistar uma ilha é nada menos que cair na sorte de ser avistado por uma promessa. Por isso lhe escrevo com uma certa alegria: a de quem tem notícia de um bom achado e de um amigo sendo.
E não fosse este achado suficiente causa para o júbilo, maior se faz o contentamento de perceber, nesse seu primeiro avistamento, uma promessa de ponte.
Com tão grande agrado vejo que se aventurou a ancorar e descansar sua parafernália de navegante, e caminhar pela paisagem, inventando-a como olhá-la, num ir sozinho quem em nada tem que ver com a solidão dos românticos, mas que a evoca porque é pela paisagem que tenho notícia de si. E reparará que digo paisagem e não natureza, porque num lugar onde é a ponte da visão (como dizia Delacroix) que cria aquilo a que chamamos o entendimento humano das imagens - ponte entre a concretude e o espírito - pouco sobra de natural no nosso olhar para a natureza. O que da ilha nos deixa ver é mais o que dela existe ou ecoa dentro de si, e menos o que a ilha é como evento geográfico. E um amigo fica sempre alentado de ver nas coisas um amigo.
Fico com vontade de imaginar que não vai só porque vai consigo, e que, talvez, a coisa mais natural de toda essa ilha seja que a olhe de forma pedestre. E que haja em si desejo de viajar pois, lembrando nossa estimada Sophia, afinal viajar é olhar. E quantas pontes nessa Ilha das quantas pontes! Parece que na verdade só há paisagem porque elas a criam, como se esse lugar do que quer ser junto (do que é entre, do que une o que era separado, isso que é a comunhão entre dois lugares que antes não comunicavam mais que pelo ver, não se tocavam, não se continuavam, esse lugar que é a ponte como ideia que ao mesmo tempo resolve e denuncia o problemas das distâncias - como queria o nosso querido Heidegger) fosse uma belíssima desculpa para que se decida erigir uma proximidade, uma relação. E que bem decide o seu olhar, e que bem tece a decisão a sua mão escrevente.
Assim me despeço, meu caro, esperando que esta minha carta lhe chegue por ponte aérea, e com a tranquilidade de ver que encontrou para si abrigo, e que por ora, o que interessa é que haja pontes e que o resto...
bem, o resto é paisagem.
Marta Bernardes
ano treze de dois mil
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